Protagonista involuntário de “A Usurpadollra”, produção 100% gerada por IA, o comunicador fala sobre a experiência de virar personagem, os limites entre paródia e abuso de imagem, e o que pensa sobre o futuro da tecnologia no entretenimento.
Virar personagem sem aviso prévio
Ele nem chegou a assistir tudo. “Assisti aos três primeiros episódios e, depois, só vi alguns recortes. Não parei para assistir tudo”, conta Rodrigo Apresentador sobre “A Usurpadollra”, a novela feita inteiramente com inteligência artificial que usou sua imagem para uma das personagens principais e viralizou nas redes nas últimas semanas. A reação inicial, ele admite, foi de surpresa positiva. “Apesar de não ser muito a favor de coisas feitas com IA, confesso que, a princípio, achei graça”, diz. E vai além, ao comparar com outros episódios da própria trajetória na internet: “De tudo o que
já fizeram comigo na internet, achei que a novela até pegou leve.”
Rodrigo entende com clareza a lógica por trás da escolha do próprio nome pelos criadores da paródia. “As pessoas já entenderam que usar meu nome e a minha imagem gera engajamento fácil e rápido”, avalia, sem meias palavras. E resume a própria régua de reação, que vem de anos de convivência com a internet: “Eu já recebo muitos ataques gratuitos na internet. Imagina se eu resolvesse me opor a algo que caiu no gosto popular? Sem dúvida, eu sofreria um verdadeiro linchamento virtual.” Não é resignação, é leitura de cenário: “A novela agradou, e eu não posso lutar contra isso.”
O bom humor aparece também nos detalhes da trama. Uma das cenas favoritas dele envolve um affair improvável dentro da história. “As cenas com o Juliano Floss eu achei muito engraçadas e completamente aleatórias. Eu poderia imaginar qualquer pessoa como meu amante, menos ele! É tão inesperado e tão aleatório que acaba ficando engraçado”, diverte-se.
Real ou virtual: onde ele prefere ficar
Apesar da experiência positiva com a paródia, Rodrigo não se declara entusiasta cego da tecnologia. “Se você me perguntar o que eu prefiro, é claro que vou dizer que valorizo muito mais aquilo que é feito à mão”, afirma, citando preferência por cenários físicos e elementos reais no próprio trabalho. “Entre um cenário virtual, feito no croqui, e um cenário com
elementos cênicos reais, eu vou sempre preferir o cenário real, com elementos físicos, reais e palpáveis. Eu gosto do físico, do impresso, daquilo que a gente pode tocar.”
Mas ele faz questão de não soar radical. “Também não sou radical a ponto de achar que a IA vai destruir a fantasia. Se ela for usada, de fato, com inteligência por nós, seres humanos, ela pode ajudar muito e ser uma grande aliada”, pondera. Prova disso é que a própria vinheta de abertura do “Rodrigo Show” nasceu com ajuda de inteligência artificial. “A músicatema de abertura do meu programa, inclusive, foi feita com IA. Foi um presente de um fã do canal, e eu adorei”, revela. E ele nota que o uso cotidiano da tecnologia já é maior do que a maioria das pessoas percebe: “Já usamos a IA o tempo todo
sem perceber. Quando vamos editar uma foto, melhorar a iluminação ou fazer pequenos reparos, por exemplo, muitas vezes já estamos usando inteligência artificial. A IA está em praticamente tudo, até no aplicativo do banco.”
Curiosamente, mesmo cercado de tecnologia, ele identifica um limite estrutural interessante: nenhuma IA cria do zero sem uma referência real por trás. “Não muda nada! Ainda assim, vamos precisar de um ‘Rodrigo’ real como referência”, brinca. “Uma coisa é você criar uma novela com frutas e legumes falantes. Outra coisa é pegar um personagem real, com histórias reais. E para que um comando de texto consiga criar exatamente aquilo que você quer, é preciso fornecer todas as características: a roupa que a pessoa usa, o cabelo que ela tem, as histórias que ela conta, os trejeitos, os detalhes…
Porque, se o personagem real faltar, vão ter que apelar para as frutas!”
Humor tem limite, e ele sabe onde fica
Rodrigo faz questão de separar humor de linha vermelha. “Existe uma linha muito tênue entre a ridicularização e o humor”, pondera. Para ele, o critério é simples: o riso precisa ser compartilhado. “Para mim, é importante que eu consiga rir junto da situação. Quando só um lado ri e o outro se fere, deixa de ser engraçado. Uma coisa é você brincar com a figura e fazer graça com as histórias dela; outra completamente diferente é envolver terceiros, falar de forma pejorativa sobre o corpo ou a aparência das pessoas e reproduzir comportamentos que envolvam xenofobia, racismo ou homofobia recreativa. Isso não é engraçado, é crime.”
E sobre o próprio direito de imagem, ele é categórico: “Sobre o uso da minha imagem, eu sou uma figura pública e escolhi ser, mas isso não significa que qualquer pessoa possa fazer qualquer coisa com a minha imagem. Se eu entender que esse uso está sendo indevido, vou sempre procurar os meus direitos. Porque, quando alguém diz ‘não’, é ‘não’. E isso precisa ser respeitado.”
O mesmo cuidado, segundo ele, vale mesmo quando a intenção é homenagear alguém. Rodrigo cita o exemplo recente de uma regravação de Carmen Miranda: “Eu acho que é de bom tom, sim, você pelo menos perguntar o que a pessoa está achando. Ninguém é de domínio público. A Carmen Miranda morreu há 70 anos e, recentemente, a Anitta gravou uma de suas músicas e usou elementos da estética e das roupas da Carmen. Certamente, ela pediu, houve toda uma preocupação com os direitos envolvidos. Mesmo quando a homenagem é feita de forma bem-humorada e sem nenhum fim lucrativo, eu acredito que cada pessoa tem direito à própria imagem e à forma como ela é representada. Ser uma figura pública não significa abrir mão desse direito.”
Existe, porém, um patamar de gravidade bem definido pra ele. “Para fins lucrativos, seria algo muito preocupante. Por exemplo, usar a minha imagem em uma deepfake para fazer propaganda de bets, que é algo que eu sou totalmente contra, seria inadmissível. Ou ainda utilizar a minha imagem para fazer parecer que eu apoio políticos ou ideias com os quais eu não compactuo”, afirma. “Uma coisa é brincar com a minha imagem e fazer humor; outra completamente diferente é colocar na minha boca ou na minha imagem algo que eu nunca disse, nunca fiz e, principalmente, que vai contra aquilo em que eu acredito.”
O papel das agências e o recado final
Sobre o mercado de criadores de conteúdo como um todo, Rodrigo defende que agências e veículos precisam se atualizar na mesma velocidade da tecnologia. “Eu acho que qualquer agência ou veículo de comunicação precisa estar sempre atualizado e, principalmente, à frente do seu tempo. É preciso acompanhar o avanço da tecnologia para atender às exigências de um mercado que muda a todo momento”, diz, citando um exemplo que o emocionou: “Tivemos um exemplo recente muito bonito, de um comercial em que Maria Rita aparece encontrando sua mãe, Elis Regina, graças aos recursos da inteligência artificial. Aquilo foi emocionante e mostrou também o potencial que a tecnologia tem quando é usada para contar boas histórias. O papel das agências é fundamental nesse processo: orientar seus criadores para que utilizem a inteligência artificial com consciência, responsabilidade e inteligência, fazendo dela uma ferramenta a seu favor.”
Ele reforça que a tecnologia, por si só, não deve ser vista como vilã. “O cyberbullying e os crimes cibernéticos existem muito antes de a inteligência artificial existir. A inteligência artificial, por si só, não é criminosa. O uso indevido da ferramenta é que pode se tornar criminoso.” Mas alerta para a vigilância constante: “A internet sempre teve pessoas mal-intencionadas, capciosas e maldosas, e isso está longe de mudar. A gente não pode descuidar nem perder a mão. Precisamos estar atentos, usar a tecnologia com responsabilidade e, acima de tudo, manter o respeito. Porque, no fim das contas, nenhuma tecnologia deve estar acima do respeito ao outro.”
Para fechar, um recado direto a quem cria conteúdo com inteligência artificial: “Nunca permita que a facilidade ou a sedução dessas ferramentas, que geram engajamento rápido, ultrapasse o seu caráter. Toda ação tem uma reação, e nós somos responsáveis por arcar com as consequências dos nossos atos, sejam eles bons ou ruins. A tecnologia pode facilitar muita coisa, mas caráter, ética e responsabilidade continuam sendo escolhas humanas.”
O que chama atenção na trajetória de Rodrigo Apresentador com “A Usurpadollra” não é apenas o episódio em si, mas a maneira como ele desloca o debate público sobre inteligência artificial de um terreno binário, entre proibir tudo ou aceitar tudo, para um terreno mais maduro, de critério. Ele não trata humor e limite como forças opostas, trata como a mesma régua vista de dois ângulos: o que diverte sem machucar cabe dentro dela, o que humilha ou engana fica de fora, não importa se foi feito por um roteirista, uma câmera ou um algoritmo. É uma postura que, num momento em que o Brasil ainda discute como regular o uso de imagem por IA sem ter respostas prontas, coloca Rodrigo menos como vítima ou opositor da tecnologia, e mais como um dos primeiros a mostrar, na prática, como conviver com ela sem abrir mão de onde termina a brincadeira e começa o desrespeito.
