(*) Por Patrícia Cocozza
Agora que encerramos o mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher, reforço a necessidade de seguirmos com a reflexão para além da data: qual é, de fato, o espaço das mulheres na liderança do setor de tecnologia? Quando iniciei minha carreira em TIC, entrar em uma sala de reunião significava, muitas vezes, ser a única mulher presente não só no Brasil como na América Latina. Esse cenário tem mudado — e isso é inegavelmente positivo. Vemos mais mulheres liderando equipes, influenciando decisões estratégicas e ocupando posições relevantes. Ainda assim, essa evolução não acompanha o ritmo acelerado da adoção digital e crescimento do mercado de tecnologia.
Globalmente, mulheres ocupam cerca de 28% dos cargos na área de tecnologia, mas representam uma parcela ainda menor nas posições executivas. Na América Latina, o cenário é mais desafiador: menos de 25% dos cargos de liderança em tecnologia são ocupados por mulheres. Em áreas essenciais de TI — como infraestrutura, data centers e computação de alto desempenho — essa presença é ainda mais reduzida. E isso importa. Hoje, tecnologias como inteligência artificial, computação em nuvem e análise de dados em larga escala sustentam decisões estratégicas de empresas e governos. Esses sistemas não são neutros: refletem as perspectivas de quem os constrói.
Como alerta Ginni Rometty – executiva do mercado de tecnologia e autora do livro Good Power: Leading Positive Change in Our Lives, Work, and World, o maior risco da tecnologia é não trazer diversidade para a mesa de decisão. Sem isso, corremos o risco de desenvolver soluções incompletas, enviesadas e de menor aderência. Diversidade, portanto, não é apenas uma agenda social — é uma estratégia de negócio. Em um ambiente marcado por complexidade, transformação constante e alta competitividade, equipes diversas tomam decisões mais equilibradas, antecipam riscos com maior precisão e constroem soluções mais inovadoras. Estudos globais mostram que empresas com maior diversidade de gênero na liderança têm até 25% mais probabilidade de superar seus pares em desempenho financeiro.
Ainda assim, persiste um “funil invisível” na tecnologia. Mais mulheres entram no setor, porém poucas chegam ao topo, especialmente em áreas mais técnicas e estratégicas. Isso não ocorre por falta de capacidade ou ambição, mas por barreiras estruturais: menor acesso a redes de influência, ausência de representatividade em cargos seniores, vieses inconscientes e menor presença em áreas críticas da infraestrutura digital. Ao longo da minha trajetória no Brasil e América Latina, ficou claro que inovação não depende apenas de avanços tecnológicos, mas da diversidade de experiências e perspectivas das pessoas envolvidas, com adaptabilidade.
O momento atual torna esse debate ainda mais urgente. O Brasil e a América Latina vivem uma fase de forte expansão digital, impulsionada pelo crescimento da computação em nuvem, pela adoção acelerada de inteligência artificial e pela demanda crescente por infraestrutura tecnológica e energética. Trata-se de uma oportunidade histórica. A construção desse novo ecossistema exige profissionais qualificados e, principalmente, lideranças capazes de conectar tecnologia, negócios e desenvolvimento humano. Garantir a presença feminina nesse processo não é apenas uma questão de representatividade — é uma decisão estratégica para fortalecer a capacidade de inovação da região.
Como destaca Satya Nadella, empatia e diversidade são combustíveis para a inovação. E inovação é exatamente o que a nova economia digital exige. Não basta ampliar a entrada de mulheres no setor; é fundamental garantir seu crescimento até posições de liderança, especialmente nas áreas mais estratégicas da tecnologia.
No fim, a tecnologia sempre foi um campo de transformação. Essa transformação não acontece apenas por meio de plataformas, algoritmos ou data centers — ela acontece por meio das pessoas que lideram decisões e definem o futuro. Ampliar o espaço para mais mulheres na liderança tecnológica não é apenas corrigir uma desigualdade histórica. É garantir que o futuro digital seja mais inovador, mais inclusivo e mais preparado para os desafios que virão. Porque a questão central não é apenas quantas mulheres estão na tecnologia e sim quem está, de fato, decidindo os rumos dessa transformação — sobre quais perspectivas.
(*) Patrícia Cocozza é gerente-geral da xFusion Brasil.
Débora Cristhiny Rodrigues Monteiro 96984280945 [email protected]
